Adoção 23 de setembro de 2026

Governo arranca em outubro a formação em IA para 100 mil trabalhadores de PME

Projeto-piloto começa em Leiria com cerca de 100 trabalhadores e quer chegar a 100 mil em três anos, com 70 milhões de euros. É a primeira medida de IA pensada para as micro e pequenas empresas.

O Governo vai começar em outubro, na região de Leiria, um projeto-piloto de formação em inteligência artificial para trabalhadores de micro, pequenas e médias empresas. A meta é chegar a cerca de 100 mil trabalhadores em todo o país, num programa a três anos com 70 milhões de euros. O anúncio foi feito pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, a 16 de setembro de 2026, na Comissão de Economia e Coesão Territorial da Assembleia da República.

Para quem gere uma PME, é a primeira vez que um instrumento público de IA é desenhado à medida de empresas com poucas pessoas — e não de quem já tem departamento de sistemas.

O que foi anunciado, em concreto

Segundo a Lusa, citada pela Executive Digest e pelo SAPO Tek, o plano tem duas frentes-piloto:

  • Leiria: uma primeira sessão com cerca de 100 trabalhadores de várias empresas da região, que servirá de modelo para «escalar essa formação».
  • Marinha Grande: uma ação setorial nos moldes, com «cinco ou seis empresas», para perceber como a IA pode ajudar no processo produtivo.

Depois dos pilotos, a ideia é replicar a formação «do Minho ao Algarve». O ministro justificou a medida com a estrutura da economia: a maioria das empresas portuguesas é muito pequena — em média, cerca de três trabalhadores — e dificilmente consegue introduzir IA sozinha.

Como vai ser a formação

Os detalhes vêm de junho. A 15 de junho de 2026, o mesmo ministro descreveu o formato, segundo a Portugal Global (AICEP):

  • Nível básico: 3 a 4 dias de formação.
  • Nível avançado: 12 a 15 dias, incluindo diagnóstico no próprio local de trabalho.
  • Parceiros no piloto de Leiria: a associação empresarial NERLEI, a Nova SBE e a École 42.
  • Rede nacional prevista: IAPMEI, associações empresariais setoriais e regionais, CIP, universidades e politécnicos.
  • Orçamento: 70 milhões de euros, a executar em três anos.

O que ainda não se sabe

Convém ser claro: até à data deste artigo, não foram publicados os critérios de seleção das empresas, a forma de inscrição, as datas exatas de outubro nem se haverá algum custo para as empresas participantes. As notícias do Diário de Leiria e do SAPO Tek também não o indicam.

Quem prometer lugares garantidos nesta formação, antes de haver aviso ou regulamento publicado, está a adiantar-se aos factos.

Porque é que isto é diferente do que já existia

O ministro referiu que «centenas» de empresas já estão a receber apoio para introduzir IA através do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade (IFIC), com mais de 400 milhões de euros aplicados. Mas esse apoio chegou sobretudo a médias e grandes empresas.

A formação agora anunciada muda o alvo: pessoas, não projetos de investimento. Para uma empresa de cinco ou dez pessoas, isso faz sentido — o que falta raramente é um servidor novo. O que falta é alguém lá dentro que saiba o que a IA faz bem, o que faz mal e onde vale a pena usá-la.

A formação ajuda numa obrigação que já existe

Há um ponto que muitas PME desconhecem. O Regulamento Europeu da IA (Regulamento (UE) 2024/1689) exige, no Artigo 4.º, que as empresas que utilizam sistemas de IA tomem medidas para garantir um nível suficiente de literacia em IA de quem os opera. Esta obrigação aplica-se desde 2 de fevereiro de 2025 e não depende da dimensão da empresa.

Uma formação pública, bem documentada, pode ser parte da resposta. Não é a resposta toda: a lei pede literacia adequada ao contexto em que a IA é usada, e isso inclui saber o que as ferramentas da sua empresa fazem com os dados dos seus clientes.

Formação não é implementação

Três ou quatro dias chegam para perceber as ferramentas. Não chegam para mudar um processo. Uma equipa que sai de uma formação entusiasmada e volta para a mesma folha de Excel, os mesmos emails e o mesmo papel, ao fim de um mês usa IA para escrever textos — e pouco mais.

O valor está no passo seguinte: escolher uma ou duas tarefas repetitivas, medir quanto tempo custam hoje e testar se a IA as faz melhor.

O que faço com isto?

Se a sua empresa está na região de Leiria, vale a pena contactar já a NERLEI e perguntar como vão ser escolhidos os participantes. Fora de Leiria, fale com a sua associação empresarial regional ou setorial e com o IAPMEI: serão estas as portas de entrada quando o programa alargar. Entretanto, escolha quem na empresa deve ir — a pessoa que conhece o processo, não necessariamente a mais "tecnológica" — e faça uma lista curta das três tarefas que mais tempo roubam à equipa. Quando a formação chegar, é com essa lista que ela passa a valer alguma coisa. E guarde o registo de qualquer formação feita: é a prova de que está a cumprir o Artigo 4.º.


Fontes

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