Em Portugal, 9,4% das empresas com 10 a 49 pessoas usam inteligência artificial. Nas empresas com 250 ou mais, são 49,1%. É uma diferença de mais de cinco vezes, e não se explica por dinheiro — explica-se por quem tem alguém dentro de casa com tempo para perceber o assunto.
Os dados são do INE, do Destaque sobre TIC nas Empresas publicado a 21 de novembro de 2025.
O retrato, em quatro números
A adoção global está em 11,5% das empresas portuguesas. Parece pouco, e é: a média da União Europeia está nos 20%, segundo o Eurostat.
Mas o mais revelador é a trajetória. Em 2023 estávamos nos 8,0%. Em 2024, 8,6%. Em 2025, 11,5%. O crescimento existe e está a acelerar — só que está concentrado onde já havia estrutura para o absorver.
E há um contraste que vale a pena reter: cerca de 40% da população portuguesa já usa ferramentas de IA, contra 11,5% das empresas. Ou seja, muita gente usa IA em casa e não a usa no trabalho. A tecnologia já entrou no país. Não entrou nas operações.
Porque é que as pequenas ficam para trás
O INE perguntou diretamente às empresas o que as trava. As respostas, do inquérito IUTICE de 2025:
- 74,4% — falta de conhecimentos
- 60,4% — custo
- 57,3% — incerteza quanto ao enquadramento legal
- 55,4% — proteção de dados
Repare na ordem. O custo aparece em segundo, não em primeiro. A barreira número um é não saber — não saber por onde começar, o que é possível, o que é conversa de vendedor e o que dá resultado.
Isto muda a leitura do problema. Uma empresa que não avança por falta de orçamento precisa de um preço mais baixo. Uma empresa que não avança por falta de conhecimento precisa de outra coisa: precisa que alguém olhe para a operação dela e diga, com números, onde é que faz sentido mexer.
O uso raso é o outro lado do mesmo problema
Mesmo dentro das empresas que já adotaram, a utilização é superficial. Um estudo da Nova SBE com 1.683 profissionais concluiu que 72% usam IA menos de três horas por semana e que apenas 2% atingem uso intenso.
Traduzindo: a maioria abriu o ChatGPT, escreveu uns textos, achou interessante e voltou ao trabalho de sempre. A ferramenta entrou; o processo não mudou.
É a diferença entre ter IA e operar com IA. E é onde está quase todo o valor por capturar.
O calendário legal já começou
Enquanto isto se discute, o enquadramento avançou. O EU AI Act está em vigor e aplica-se por fases:
- As regras de transparência estão aplicáveis desde agosto de 2026
- A literacia em IA (Artigo 4.º) é obrigatória para quem usa IA na empresa desde fevereiro de 2025
- As obrigações dos sistemas de alto risco entram a 2 de dezembro de 2027
A ANACOM é a autoridade nacional designada. Vale a pena sublinhar o Artigo 4.º: a obrigação de formar quem trabalha com estas ferramentas já existe hoje, e não depende do tamanho da empresa.
O que fazer com isto
Se gere uma PME e está nos 88,5% que ainda não adotaram, a leitura útil destes números não é «estou atrasado». É esta: a barreira dominante é de conhecimento, não de capital — e essa resolve-se mais depressa e mais barato do que a maioria das pessoas pensa.
O erro caro é o inverso: comprar tecnologia antes de perceber onde se está a perder dinheiro. Automatizar um processo frágil não o corrige — só o faz falhar mais depressa e com mais testemunhas.
Fontes
- INE — Destaque, Utilização de TIC nas Empresas, 21 de novembro de 2025
- INE — Inquérito à Utilização de TIC nas Empresas (IUTICE) 2025
- Eurostat — Artificial intelligence use in enterprises, dezembro de 2025
- Nova SBE — estudo com 1.683 profissionais, julho de 2026
- Comissão Europeia — Regulatory framework on AI